21 de dezembro de 2013

Cada Ser Humano é Um Universo

De uma bela conversa,
fruto de um belo amor.

Cada um de nós é um universo
recheado de versos
alguns dispersos, outros inversos,
mas ainda assim, sempre
versos.

e teus versos, versam sobre o quê?

há grandes versos significativos
ou apenas pequenos versículos?
versificam sensações em grandes odes
ou versam apenas sobre chulas conquistas?
teus versos são como pôr-do-sol
ou verseam apenas para convencer?
versejam para alegrar
ou são versos para amargar?

e teus versos, versam sobre o quê?

Cada um de nós é um universo
recheado de versos.

13 de dezembro de 2013

Fora da ordem

Esse é o alvorecer de tudo que se quer ver
Sem fazer sombra na melhor hora do sol
Eternidade duradoura com sossego então
Melhor que fique assim

Nação Zumbi

jogo três pedras para cima
e deixo que apontem meu destino
borboletas revoam
e se mexem no meu intestino
dos descontentes
eu canto o hino
minha carta de demissão
eu assino
e ando assim, sem rumo
em profundo desatino

mas

você chegou pra acabar
você chegou pra começar
você chegou pra festar
você chegou pra cantar
você chegou pra tirar

tudo, tudo do eixo:
minha rima e meu queixo
foram para o chão
seguro com força tua mão
não, não quero que vá

então eu danço
e os dados eu lanço,
seja o que for:
pro que der, eu estou.

11 de dezembro de 2013

Passeio

Um passo à frente, e você não está mais no mesmo lugar.
Chico Science

I

quero dormir até virar pedra
repensar sobre o fim
recolocar tudo no seu lugar
mudando todo o jardim

II

vou correr e bater na tua porta
escrever errado em linhas tortas
jogar os dados, apostar na sorte
pois minha única certeza é a morte

vou rasgar os panos que me cobrem
cobrar aquela velha dívida esquecida
esquecer que envelheço a cada dia
adiar a trágica trajetória traçada
traçar todos os pratos que você não fez
enfezar os traiçoeiros que rondam

e assim dar continuidade
ao que não começou
quem precisa de ordem?

III

Passeio no mundo livre
buscando novos verbos e nações
tudo que complete e satisfaça

pétalas multi-coloridas
em narcisos nas margens dos rios
olhando para seus reflexos
e vendo apenas sombra:

ouça os ecos daqueles que amam.

Passeio no mundo livre
correndo pelas pontes e pelos rios
tudo que inspire e seja vivo,
que viva na pele, no pelo,
tudo que complete e satisfaça

a carcaça.

6 de dezembro de 2013

Tua música na minha memória

passei acordado a noite inteira
ouvindo tua música na memória
ela, tão notória, por toda a distorção
depredatória, cantava
a noite inteira
tua música.

e as janelas se abriam
e gritavam
"tá fazendo sol,
tá fazendo sol!"
e com a força do pensamento
tua música na minha memória
fez-se história:

oscilatória,
ilusória,
contraditória,
aleatória.

tua música na minha memória
retumbava feito alfaias
no maracatu que passeava
nas flores da essência.

e as portas se abriam
e convidavam
"pode entrar,
entre, venha!"
e criou-se esperança
com tua música na minha memória
de cabeça aberta, espelho na alma, dizia:

amansa meus pelos,
alcança meus ecos,
lança meus dados,
descansa meu peito.

enquanto meu corpo
deitava-se naquele barco a vela
ouvindo tua música na minha memória
cercavam-me dúzias de flores amarelas.

naquele dia o sol brilhava,
rebelavam-se as ondas, mas ainda assim,
levei minha alma pra passear
com tua música na minha memória
e dizia a ela:

pinte tua tela,
seja mais singela,
afivele sua sela,
seja mais bela.

e naquele barco a vela
velei à noite
com tua música na minha memória.

3 de dezembro de 2013

Folhas prateadas voam incansáveis

Não vejo o sol dar trégua
Água aqui é lenda
Secura não é pouca, e o céu desaba em conta-gotas
Acordou com o sol e subiu pra ver a chuva
Já vejo o céu escurecer
Agora o temporal inteiro se aproxima...
Nação Zumbi

me apoie antes que eu me perca
me alcance antes que eu me solte
e não volte.

segura e aperta forte,
sem medida certa
só demonstre estar ali
ainda que eu já não esteja aqui.

há um exército aqui dentro
marchando incansavelmente
procurando uma saída
buscando passagem, uma vida.

todos os dias
um soldado é abatido
e uma folha prateada
é pisoteada

nem por isso
ele para de marchar
nem por isso
ela para de voar.

30 de novembro de 2013

10 de outubro de 2013

Sobre dormir

nessa hora
agora de noitinha
ela chega, devagarinho
e eu deixo:
ela aconchega,
fica de conchinha,
e eu digo:
"mas você não toma jeito!"
ela devolve:
"ah, só faz sentido contigo"
e na noite
a gente se dissolve.

29 de setembro de 2013

(Sobre)Viver

estou com a barba por fazer
tenho lido literatura latina e francesa
no meu casaco há uma piranha tua presa
durante a noite chega a melancolia
o meu caderno está cheio de folha vazia
minha garrafa d'água está meio cheia
está frio, então eu coloquei uma meia
o meu celular, faz tempo, tá bichado
as coisas são estranhas sem você do lado

tenho me acostumado a ser sozinho
hoje pela manhã fez um solzinho
fui assistir um show sem companhia
"na noite sozinha eu ria, mas crer eu não cria"
esqueci um pão em cima da geladeira
quando pequeno, adorava mamadeira
onde moro, há um gato e um cachorro
eu vivo em Curitiba e sequer tenho gorro
tenho vontade de conhecer o Rio
e gosto muito dos meus tios

Benedetti me encanta
eu nunca vi uma anta
não tenho cama, apenas um colchão no chão
sempre durmo com as cobertas sobre a mão
estou morrendo de vontade de uma caipirinha
sinto saudades de dormir de conchinha
é ruim deitar-se sozinho no inverno
anda em alta o meu instinto paterno
prefiro vinho branco
meu coração não pega mais no tranco
tenho ouvido muita música latina
sigo semanalmente uma certa rotina

às vezes tenho insônia
não sei que flor é uma begônia
meu apetite, enorme, desapareceu
o que é seu é meu, o que é meu jamais será teu
já fiz muito mal à alguém
acredito num além
completamente apaixonado por crianças
às vezes eu perco as esperanças
meu coração precisa de amor
e eu já te disse que sou professor?

28 de setembro de 2013

Divisão de bens

por mais que o tempo passe tudo fica na memória
Dan Nakagawa

será que podemos ter um pouco de disciplina?
eu fico com minha solidão, você com sua cocaína

eu mantenho os botões e as pétalas são tuas
eu tenho meus sóis e que você fique com tuas luas.

mas as memórias, as memórias, são só minhas.
só minhas.

27 de setembro de 2013

Um momento

aproveite este momento
em que não há sentimento
vamos nos livrar de todo tormento
tirar as roupas e jogá-las ao vento
rápido! pra curtir, nenhum movimento,
em hipótese alguma, deve ser lento

das roupas nós fazemos cama
na rua sem luz nós criamos chama
enquanto a lua assiste, se derrama
e nós nos envolvemos nessa nossa trama

e então...
ah meu bem, e então a gente se ama.

19 de junho de 2013

À Vida II

Zera a reza, meu amor
Canta o pagode do nosso viver
Que a gente pode entre dor e prazer
Pagar pra ver o que pode
E o que não pode ser
Caetano Veloso

"não há amor que dure para sempre.
não há nada que dure para sempre."

antes de ti eu cria, que nada na vida se cria
tudo tinha data e hora certa, agora vejo que não.

sentimento é um troço estranho, sem prazo de validade
ele toma posse e faz fuzuê no coração, desordena a cabeça
deixa a gente sem prumo e não tem hora pra ir embora não.

e esse, esse meu, esse fez casa em mim e esse, esse não sai mais.
não qu'eu quisesse que saísse, é esse troço que me faz levantar
da cama todo santo dia, puxar o ar pros pulmões e seguir por aí.
ainda que seja também esse troço que me faz ficar na cama,
não levantar dela forma alguma e querer que o mundo se exploda.

mas eu não busco o paraíso, não, onde tudo é perfeito, o perfeito
é irritante demais. busco aquela menina, aquela menina que não
tá por aqui agora não, que só ela sacia todo esse sentimento que
não se controla jeito algum aqui no coração. sabe, perfeição irrita 
sim, mas a dela... ah, a perfeição dela! que poderia mais eu de querer 
além dos trejeitos e manias mais perfeitas que uma pessoa haveria 
de ter nesse mundo?!

eu não sabia que tudo isso existia até você aparecer. e sabe, a gente
vive caindo por aí, mas eu vou sempre achar que nós dois somos
um time campeão. daqueles com várias estrelas na camiseta, sabe?
te espero, mesmo que você não venha, porque isso tudo aqui não 
vai acabar, não. ah, não mesmo! troço insistente, sabe como, não é?!

À Vida

        não há chuva que não vire tempestade
     não há vento que não vire vendaval
não há calor que não vire febre

    não há pedra que não seja arremessada
não há vidro que não seja quebrado
 não há pau que não seja dobrado
 
não há amor que dure para sempre.
 não há nada que dure para sempre.

15 de junho de 2013

Ar XII


Dame la sed que el agua no apaga
Dame la sal que el mar se robó
Bebe de mi boca desesperada
Déjame bañarte con mi sudor
Dame la furia de tu mirada
Dame el veneno de tu pasión
Deja tu perfume sobre mi almohada
Para respirar de tu olor

3 de junho de 2013

Olhar

O seu olhar lá fora
O seu olhar no céu
O seu olhar demora
O seu olhar no meu
Arnaldo Antunes

teu
olhar malicioso
atravessa
minh’alma
que clama e grita
desesperada e
desejosa de
algo mais que
teu
olhar malicioso.

30 de maio de 2013

Raul / Lilah

Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Arnaldo Antunes

Eu entrei naquele mesmo restaurante chinês,
escolhi minha comida e sentei-me na mesma mesa.
Então a criança, que sempre está ali, correu por mim.
E eu, diferentemente, comecei a chorar e a chorar.
Queria abraça-la, mostra-la o quão carinhoso posso ser,
numa urgência e necessidade que só meu coração explica.

A urgência vem duma insegurança profunda
de quando surgirá a minha criança.
Terei eu um dia,
aquele pequeno correndo pelos restaurantes,
abrindo sorrisos alheios, inclusive o meu,
com a vida pulsante que há em toda criança
que energiza a mais triste das vidas e
ilumina os cantos mais escuros de uma alma?

Onde está  aquela criança linda pr'eu chamar de minha,
pequena criação divina pr'eu me doar por completo?
Onde está aquela criaturinha única, estrela do meu céu,
pequenina e astuta que me levará à alegria absoluta?

Sonho com você, que ainda não existe.
E me corrói por dentro...

Será que um dia você existirá?
Os sonhos se tornam realidade?

29 de maio de 2013

Ar XI

Escuta, não quero contar-te do meu desejo
Quero apenas contar-te da minha ternura
Manuel Bandeira

só nós dois
meu amor
não cabemos em mim ou em você
como toda gente tem que não ter cabimento
para crescer
Arnaldo Antunes

I

Isso não tem nada a ver com ciúme.
É apenas que teu cheiro, teu perfume,
me enlouquecem.

Eu fica completamente fora de mim;
ver tuas cores radiantes é o estopim:
dissolve-se a razão.

(Dos teus Campos,
eu peço apenas
rosas e lírios)

II

As palavras que vêm de ti rodopiam no ar.
Vida própria, criam imagens e mundos,
remexem com meu eu mais profundo
e não há Tabacaria que faça eu voltar.

E eu não ligo se do meu amor eu dou Bandeira:
por ele e por ti eu puxo a faca da algibeira,
por ele e por ti eu corro e paro na beira:
por ele e por ti eu pulo da ribanceira.

Pra chamar tua atenção, faço um iê iê iê,
mexo pra cá, mexo pra lá, faço um balancê,
recito Murilo e grito de dentro da gaiola
que você jamais sairá da minha cachola!

III

Então chega de lero-lero.
É em ti, e apenas em ti,
que tenho tudo que quero.

25 de maio de 2013

Discórdia

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve
Arnaldo Antunes

Não há nada que satisfaça
o passageiro que por ali passa:
nada que a passageira faça,
trespassa aquela carapaça.

Não há nada naquela praça
que aquela couraça desfaça:
nem o pão que assa,
nem a cachaça.

A passageira, sem graça,
recoloca sua mordaça.
E o passageiro, por pirraça,
abraça a sua carapaça.

27 de abril de 2013

Marcado a ferro

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.
Baudelaire 

O pulso ainda pulsa
E o corpo ainda é pouco
A. Antunes
 

Minha mente é perturbada pelo vazio e pela constância inconstância dos destroços dos barcos que se partiram em grandes muralhas de pedras em noites tempestuosas regadas à trovões e densas nuvens negras.
E os meus sentimentos pegam fogo de dentro para fora em chamas espirais que giram e giram e incendeiam tudo ao redor com delicados toques como as pontas dos dedos que roçam a pele suave das bochechas esculpidas cuidadosamente por Michelangelo do casal de namorados que senta-se todas as noites na beirada do abismo e ali se abraçam e contam as estrelas juntos.
Minha dor se propaga como o vento sem direção objetivo ou caminho ela apenas segue e transforma-se em brisas ventos ventanias tornados e furacões e ela me envolve e ela me consome e ela me apóia e ela me derruba e ela me levanta e ela me derruba.
E amanhã irei a praia deixarei meus problemas na areia e irei me banhar no mar o mar que tanto sinto falta o mar que me ajudará a trocar de pele (como cobra) que lavará minhas cicatrizes e minhas marcas que me livrará dos meus pesadelos que acolherá minhas lágrimas infindáveis que me tornará algo melhor.
E pode não acreditar mas por debaixo destes erros todos há um ser humano por debaixo destes olhos sedados há um ser humano por debaixo destas mãos sujas de sangue há um ser humano.

22 de abril de 2013

Soçobrando

Não me falta cachorro
Uivando só porque você não está
Parece até que está pedindo socorro
Como tudo aqui nesse lugar
A. Antunes 
Talvez eu não saiba nada,
pode ser que eu sinta tudo,
quem sabe eu saiba tudo,
ou que eu sinta nada.

Meu relógio não marca tempo.
Dali o derreteu, dos dois ponteiros
fez um só, e eu me perdi:

e eu me pergunto pr'onde vou,
e eu me pergunto o que sou.
E eu me pergunto o que eu faço
se todo o dia eu me desfaço?

Coração vulcânico
que me alegra com o espetáculo
de tuas cores intensas:

você está acordada?
"Sim, estou bem aqui".
Bem... Posso lhe perguntar sobre seu dia?

22.04.13 - 01:44 (ou PAHMC)

Socorro!
Alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta...

A. Antunes / A. Ruiz

Diclofenaco sódico: 750.
Nimesulida betaciclodextrina: 400.
Paracetamol: 750.

Dor e febre:
só quero dormir
pra não mais acordar.

21 de abril de 2013

Quotidiano

Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Murilo Mendes

Bernardino Jabá derrotou
um bando de cangaceiros
com sua valentia e astúcia.

Para Caetano, tudo era
apenas uma brincadeira,
e foi crescendo, crescendo.

Jorge Ben não resistia à menina
que passeava pela sua janela
e a via com... malicia.

O traço grosso, as cores alegres,
a influência de Warhol: o pop brasileiro
de Romero Britto me faz sorrir.

E Chaplin diria

22 de março de 2013

30 Moedas de Prata

Há algumas coisas que acontecem na vida que por mais desgraçada que sejam, nos mostra e nos ensina algo. O último soco na boca do estômago que a vida me deu foi sobre o caráter alheio: ou a mais completa falta dele.
Há de se pensar que pessoas com namorados escolheram tal pessoa para estar ao seu lado, portanto, escolheram a respeitar, a amá-la e não lhe fazer mal de forma alguma. Claro que todo relacionamento tem seus incidentes, somos todos humanos e cometemos erros: infelizmente, acontece. Porém, há uma diferença gritante quando cometemos erros deliberadamente, erros que podem machucar profundamente as pessoas que dizemos amar.
Não sei o que motiva uma traição e não quero saber. Como disse, todo mundo erra, mas persistir no erro, continuá-lo praticando!, é uma senhora falta de caráter. Não sei o que te motivou a procurar atenção numa outra pessoa, quando a pessoa que te ama é uma das mais carinhosas que já vi. Adrenalina? Fazer algo proibido? Ou apenas falta de caráter?
Fui joguete pro teu ego: é fácil se aproximar de alguém quando esta pessoa está no momento emocional mais vulnerável da vida dela (e dizendo isso não quero me eximir de culpa alguma): e você sabia disso, você sabia exatamente a situação deplorável em que eu me encontrava. E eu cai, cai sem ter a mínima ideia de pra onde estava indo: ouvi tuas palavras doces, que agora soam amargas, talvez as mesmas palavras doces que diz para aquele que te ama e anseia por você. Palavras vazias: tanto quanto quem as pronuncia.
Você me iludiu e você me enganou, mas quanto a mim, realmente não importa: fui apenas alguém, um aleatório que você usou sem se importar para suprir uma suposta falta de atenção que você tinha. E digo suposta porque não consigo acreditar que seja realmente isso: nunca vi alguém ser tão presente quanto seu namorado. Mas não é como se isso importasse, não é mesmo? Afinal, porque ser honesta e leal com quem me ama se posso simplesmente fazer o que bem entender pelas costas? Por que se privar do amor absoluto e de todo o carinho da pessoa que me ama, se posso continuar a tê-lo e ainda achar um outro otário, que está fraco e perdido, para massagear meu ego? Por que ser honesta, pra que respeitar, pra que ser sincera, não é?
Você foi desonesta com seu namorado, você mentiu para ele e o enganou. Afinal, como você me disse, você não tinha namorado, lembra? Eu lembro. Não sei por que alguém se propõe a fazer isso, não sei qual seria o objetivo, me pergunto o que tem a ganhar alguém que age assim. Me pergunto onde fica o sentimento, onde foi parar a empatia.
Me sinto podre, me sinto porco, me sinto idiota. Fui enganado por completo. Mas sinto ainda mais por aquele que te ama. Mas a vida sempre devolve, não é?
Assim aguardo.

12 de março de 2013

Dia a dia

não quero o papel de protagonista,
a partir de hoje, apenas pontas;
larguei tudo na mão do destino,
aquele cretino 
que não pagou minhas contas.

26 de fevereiro de 2013

O despertar

Despertou com uma voz que sussurrava baixinho, com delicadeza e ternura, seu nome de forma carinhosa. Abriu os olhos vagarosamente, e observou o rosto que estava ao seu lado: um par de lindos olhos castanhos lhe sorriam, enquanto aconchegantes lábios desenhados murmuravam sons que lembravam um pequeno gato: ronronava com uma sutileza felina que lhe encantara por completo. Só lhe restou sorrir e abraçar aqueles lábios com os seus.
Na noite anterior, o Blues rasgara suas almas, e as unira sob o som de "I'm your hoochie coochie man" duma forma onírica: os cinco sentidos se aqueceram e, no mesmo instante que a guitarra chorava, lábios foram dedilhados; conforme o ritmo aumentava, a respiração acelerava. As pontas dos dedos se entrelaçavam nos cabelos e os acarinhavam com desejo e curiosidade. Fez-se a magia da reciprocidade.
Quando deitaram, o par de olhos sorridentes eram pura poesia: bichinhos dengosos que se aninharam em braços abertos, prontos para acolhe-los e protege-los das mazelas do mundo; prontos para entrete-los e distraí-los das mazelas do mundo; prontos para abraça-los e não mais soltá-los: um par de bichinhos que encantara o outro par de olhos. Se antes apagados e desacreditados, agora tinham um brilho particular: recuperara a fé.
Sentia agora, nos lábios, uma doçura que não lembrava que existia.

25 de fevereiro de 2013

Vira lata

A gente é cachorro vira lata
daqueles moribundo,
bem vagabundo,
maltratado pela vida:
vida desvalida.

A gente é cachorro vira lata
daqueles que têm focinho esfregado
no chão,
e no dia seguinte, desamparado,
lambe aquela mesma mão.

A gente é cachorro vira lata
daqueles que leva bicuda
e sai chiando,
e quando dona grita "acuda"
desbarranca atrás matando.

A gente é cachorro vira lata
daqueles que é expulso sem medo
e fica perdido sem rumo,
mas quando dona estalar os dedos,
vida volta ao prumo.

A gente é cachorro vira lata
daqueles cheio de lealdade,
que tá com a sina escrita e não aprende
que na primeira oportunidade
tua dona te vende.

19 de fevereiro de 2013

Um aceno

Eu irei correr até o rio.
Levarei comigo um buquê
de flores roxas e azuis,
e junto com elas uma caixa de lembranças.

Nesta caixa há um oceano,
um oceano em tempestade,
uma tempestade perenal
que inundou minha vida.

Deslizarei suavemente pela margem,
acompanhando com olhos curiosos
o desenho que teus pés ociosos
fazem, enquanto teus lábios, desenhos,
sussurram Neruda.

E quando eu estiver no rio,
eu irei sorrir.
Eu irei sorrir, e pétala por pétala,
abrirei minh'alma, e assim a deixarei;
para que a correnteza a lave e leve.

E quando eu voltar do rio,
eu irei sorrir.
Eu irei sorrir, e retalho por retalho,
costurarei minh'alma, e assim a vestirei;
para que a caixa fique no rio que a deixei.

18 de fevereiro de 2013

o Equilibrista

Procuro o Equilibrista.
Um que não seja egoísta,
e compartilhe comigo
a magia que há no abrigo
de estacar os pés no chão
da corda: firme sensação.

Procuro o Equilibrista,
para que ele me ensine a arte
do equilíbrio:
qual o ponto do balanço
perfeito,
para que eu não penda
para a
tristeza ou
para a
incerteza?

Procuro o Equilibrista.
Um de sangue e calor,
paciente e escritor:
de sorriso belo e que não desista.
Um de lábios desenhados e
voz doce.

Procuro o Equilibrista,
para que ele me ensine a arte
de versar:
qual o ponto do verso
perfeito,
para que ele não penda
nem para a
dor
nem para o
amor?

Procuro o Equilibrista,
para que ao me equilibrar,
ele me desequilibre.

17 de fevereiro de 2013

Tenho fome

Estou com fome.
Fome de sorrisos:
basta um e eu eternizo.

Estou com fome.
Fome de amor:
um puro, por favor.

Estou com fome.
Fome de paz:
uma bandeira branca me satisfaz.

Estou com fome.
Fome de vida:
ao máximo, nada comedida.

Estou com fome.
Fome de sentir.
Coração, pare de rugir.

5 de fevereiro de 2013

Sombras

Quando a grana tá curta,
a amizade surta.
Mas quando a conta eu acerto,
não falta gente por perto.

Meus amigos
só aparecem quando eu bebo.

Quando meu copo tá vazio,
eu sinto frio.
Mas quando meu copo está cheio,
eu tenho o calor alheio.

Meus amigos
só aparecem quando eu bebo.

Quando eu tenho fome,
não lembram o meu nome.
Mas quando eu tenho cerveja,
o pessoal até festeja.

Meus amigos
só aparecem quando eu bebo.

Inspirado por Vanguart e pessoas.

9 de janeiro de 2013

Negócios

posso viver de poesia?
pagar meu aluguel com versos,
pedir meia dúzia de pães na padaria
e pagá-los com repetições?

comprar roupa e parcelá-la
em três estrofes curtas;
colocar um ou dois sofás na sala,
acertar com um soneto para daqui um mês?

fazer caridade com versos ingênuos,
um poema inteiro dedicado à instituições.
e que isso fosse suficiente para, talvez,
alimentar alguns corações.

imagine quão belo seria,
o telemarketing ofertar
um combo internet, telefone e tevê,
e apenas quatro versos lhe cobrar?

pode parecer nada importante,
mas eu sonho com esse dia
simples e um tanto distante,
que eu possa viver de poesia.

Área de trabalho

minha área de trabalho está uma bagunça. há algo errado.
os ícones estão sobrepostos, há pastas com nomes estranhos e sem sentido, números misturados com letras, formando supostos nomes desconexos. estou confuso. umas músicas jogadas, que não sei se as ouvi ou se apenas estão ali perdidas, pedindo alguns minutos de minha atenção: como tantas coisas na minha vida.
há, também, umas três pastas de fotos, antigas, que não deveriam estar na área de trabalho, pois como tudo, teoricamente, neste computador, elas têm seu lugar específico. mas tenho uma certa relutância em arquivá-las como deveria: estas pastas são de fotos nossas: duma festa que fizemos, dum café que tivemos, dum porre que tomou. acho que é algo meio inconsciente deixá-las ali, na área de trabalho: são lembranças queridas que sempre rodeiam o pensamento, bastando ler o nome das pastas para que isso aconteça. enquanto eu poderia arquivá-las, e assim tê-las ao alcance junto com várias outras pastas de lembranças, estas ficam ali, à vista. não sei bem qual o motivo destas pastas, especificamente, estarem onde estão, mas o carinho ao vê-las é imediato. 
acho que é isto: saudades tua.
toda esta bagunça me contradiz, não é da forma como sempre fiz. acho que ando meio desatento, olho pra este texto e reparo em algo que aconteceu: a caixa alta nem apareceu.
Acho que é isto: saudades tua.

6 de janeiro de 2013

Ar X

Ela me pediu um poema.
Resmungou que há tempos
não escrevia algo pra ela.
E quem resiste a cara do amor?

Pensei então que poderia 
descrever, minuciosamente,
uma paisagem familiar pra mim:
as estradas de curvas fechadas
que passeiam até belas montanhas,
desembocando em um vale
que só pode ter sido desenhado à mão,
tamanha perfeição.

Mas não. É clichê demais.
Pensei em cruzar comparações,
como a sensualidade do tango
casa com a latinidade
tão presente naqueles quadris
que com movimentos sutis,
e outros nem tanto,
me hipnotizam:
alguns desejos nada santos.

Ou ainda,
resgatar poetas e compositores,
quem sabe um ou dois pintores,
e fazer um poema
que fosse só dela.
Talvez com um pequena introdução,
para deixar clara a intenção:
ceci n'est pas un poème.

Entre tantas ideias,
acabou que nenhuma escolhi.
Cheio de dúvidas,
simplesmente desisti
e nada escrevi.

3 de janeiro de 2013