23 de fevereiro de 2017

Carolina

Ai Carolina,
e esse teu amor que tanto desafina?
você que tanto diz do amor
mas deixa ele passar tão fácil
para se transformar em rancor?

Ah, Carolina!
você não percebe ou finge não,
mas esse teu amor é só rotina:
não completa nem preenche,
não traduz brilho à retina.

Carolina...
tua saudade me enganou,
te esperei, você não chegou.

Te deixo então
com o que me permitem lhe dar:
tenha de mim, todo o meu silêncio.

28 de janeiro de 2017

Do outro

Ninguém escapa ileso do outro:
tenho todas as cicatrizes de todos os amores,
umas tão reais quanto uma costela quebrada,
outras tão sentimentais quanto uma melancólica música do Damien Rice.
Ninguém escapa ileso do outro:
sabia de tudo que era ruim antes dos vinte e cinco,
pois de mim ninguém escapou:
quem planta vento, colhe tempestade.
Ninguém escapa ileso do outro:
lembro de todos os nãos e de todos os sims,
cada um a sua forma moldou tudo o que sou:
concreto e pena.
Ninguém escapa ileso do outro:
cada sorriso de uma criança por mim causado
eram como gotas d'água num deserto imenso:
minha alma agradecia a fé restabelecida.
Ninguém escapa ileso do outro:
este poema só existe em função do teu
e sorte a minha eu não ter escapado de ti.
Ninguém escapa ileso do outro:
Lorenz há anos percebeu e isso muito me perturba:
quando eu bato minhas asas, de quem a vida muda?

24 de janeiro de 2017

Dia a dia

queria poder andar com a calma
de quem não tem pressa na alma:
observar o casal de barulhentos papagaios
que rondam as praças do Centro
ou
sentar e fechar os olhos e ouvir e sentir
cada uma das badaladas do sino da Catedral
ou
andar como os passos da menina
com tattoo no pescoço:
passos lentos de quem tem alma na calma
passos que observam, passos que não tem hora

e eu
passos rápidos de quem está atrasado
não olho, nem reparo, nem sinto ou observo
nada além do meu relógio
e da insegurança da possibilidade de perder a hora
enquanto a vida com certeza perco

17 de janeiro de 2017

Em mim, de mim

dentro de mim sou muitos
dentro de mim cabe o mundo

desconheço tudo que sou
sei de tudo que me faz:

sopros, sussurros, suspiros
suor, sangue, sons

a explosão bruta lentamente queimando
a paz escassa belamente preservada
o diabo com olhos em lágrimas
o anjo com sorriso malicioso

dentro de mim cabe o mundo
dentro de mim sou muitos