5 de dezembro de 2012

4 de dezembro de 2012

Bella donna

a Gustavo Wisniewski

Tu, bela dama,
és a responsável
pelo súbito fervor
do meu coração:

é por ti que ele dispara
e é em ti qu'ele se ampara.

Tu, bela senhora,
de cintilante pele,
pele morena,
pele que me encanta:

e que nos meus sonhos canta:
e minhas desvirtudes espanta.

Tu, bela mulher,
és a culpada
do adocicado sabor
em meus lábios.

Eu tenho visões dalinianas de ti:
teu corpo, frágil fruta, me sorri.

Tu, bela moira,
és a que terminará
a linha que determina
minha dilatada vida:

com'um beijo Sem Retorno,
inflexível e sem adorno. 

XI

eu me diluo em ti
em doses homeopáticas
de mim mesmo

29 de novembro de 2012

Sujo

você finge
que não vê
gira os olhos pra cima
minha presença sublima
ali eu nem existo
mas eu insisto:

veja bem, meu amor.
olha o que a vida tem
pra nos oferecer!
poesia e dor,
sexo e desdém,
tudo pra nos foder!
_

maio/2012

31 de outubro de 2012

O rei deposto

Decretaram-me falência.
Algo meio súbito, sem precedência.
Acusaram-me de demência,
e me expulsaram na urgência.

Tiraram-me do meu trono,
dele não sou mais dono.
Perdi meu quimono,
e junto com ele meu sono.

Já não sei mais
o que são banquetes e festivais
ou súditos leais.

Há ainda aquela assombração,
que ronda com certa dedicação:
um constante espião
fazendo-me viver numa ilusão.

Eu sou o rei deposto,
que não cumpriu o proposto.
Aquele que só causou desgosto;
um palhaço sem rosto.

Eu sou o rei deposto,
que se enganou com seu posto.
Sinto-me um farsante exposto
e agora vivo a contragosto.

9 de outubro de 2012

O menino do Rio

Menino do rio
calor que provoca arrepio
toma esta canção
como um beijo
Caetano Veloso

Era uma saída planejada: havia segundas e terceiras intenções. A mente arquitetara toda uma linha de passos a serem seguidos, assuntos a serem tocados.
Um pequeno atraso, para que a ansiedade e a apreensão o capturasse. Queria dúvidas e um pouco de insegurança em sua cabeça.
O menino chegara pontualmente, e de longe nos avistou. Atravessou a rua com passos firmes, um olhar cheio de atitude e sorriu conforme se aproximava. Após breves cumprimentos, dirigimo-nos a um bar próximo. Enquanto bebíamos, o menino demonstrava todo a simpatia que já sabíamos possuir: um sorriso encantador, uma facilidade em comunicar-se e as figuras de linguagem que denunciavam onde nascera e sua idade.
A tarde passou rápida: com conversas informais, risadas jogadas e mãos se acariciando discretamente. A ansiedade do menino era visível: respostas curtas e uma certa inquietação transparecia em cada parte dele. Quando o convite de tomar um café, na nossa casa, surgiu, não houve hesitação.
Ao sentarmos no sofá, o clima era tenso, porém fizemos questão de descontrair o menino, para que ele se sentisse a vontade. Conforme nos aproximávamos, o toque dele ficava um pouco mais firme, e seus músculos um pouco mais tensos.
Num rápido movimento, bocas se descobriram. Enquanto a mão do menino percorria certas curvas, meu corpo colava nas costas dele e minha boca desbravava a deliciosa pele morena, com beijos carinhosos e mordiscadas no pescoço. No momento em que uma das minhas mãos acarinhava seus cabelos, a outra explorava os detalhes seu corpo, sentindo os músculos firmes e a pele lisa, eu chegara a alguma conclusão: aquele menino não existia.
Ofegante, ele suavemente começou a deitar seu corpo sobre o meu, a cabeça inclinando-se sobre meu ombro. Meus lábios escalaram o pescoço, beijo a beijo, até os lábios dele. A boca não era apenas linda: tinha o sabor d'algo jovial e aqueles lábios, até então trêmulos, sabiam tão bem o que faziam.
Mãos rápidas, as minhas deslizaram corpo abaixo e surpreenderam um volume, mais do que esperado. Tateei levemente, aguardando um retorno, que veio através de gemidos silenciosos. Há tempo não sentia algo tão cheio de vida. O volume surpreendera: a textura era deliciosa e era tão pulsante! Minha mão entreteve-se, impressionada, por ali, brincando e sentindo toda a vida que palpitava. Conforme minha mão subia e descia, os gemidos aumentavam, os olhos giravam e, com um último suspiro, o êxtase foi alcançado.
Ao terminar o café, uma certa dúvida sobre o menino se abatera, uma confusão comum para algo incomum. Ele havia se descoberto, e a aceitação de algo novo nunca é fácil. Espero que ele opte por  si, e por tudo que sentira naquele momento.
Ao ir embora, para mim o que ficou foi aquele cheiro de menino, cheio de tesão, que impregnou minha cabeça e dela não sai de forma alguma.

27 de setembro de 2012

Prazeres & descobertas

E aqueles meninos tolos, nus, com os corpos sorrindo. Livres e totalmente desempedidos, a curiosidade era quase uma entidade que rondava seus desejos, cutucando-os com sorrisos maliciosos e toques audaciosos. E os olhos perplexos com o volume que de cada um surgia, era uma apresentação a vida de descobertas.

E aquelas meninas bobas, mordendo os lábios, de cabelos molhados e camisetas coladas ao corpo, mostrando as curvas joviais para os olhos espantados uma da outra. Espantadas com o estranhamento de repararem pela primeira vez no corpo alheio, e ainda mais com a pequena chama que se instalava no seus interiores.

E com a ponta dos dedos, acarinhavam os cabelos uns dos outros, timidamente. O primeiro passo é complicado: requer um certo jogo de cintura e a inexperiência falava alto. Os rostos sutilmente avermelhados, a respiração levemente acelerada, os olhos abrilhantados pela cobiça e os pelos eriçados. A ansiedade de não saber o que acontecerá.

Então ela, vagarosamente, começou a fechar sua mão nos cabelos morenos ondulados dela. Enquanto a direita brincava com os cabelos, a esquerda deslizava pelas costelas, acompanhando a curva que aquele corpo possuía. Conforme a mão ia descendo, o corpo dela respondia ao toque: os pelos eriçados faziam um belo contraste naquele corpo branco, quase rosado, e a respiração um pouco ofegante revelava um contentamento com o carinho que recebia. A esquerda então, após decorar o desenho dela, pousou no quadril e, com uma delicada firmeza, foi trazendo o corpo dela para perto. A direita escorregou para a nuca e, impulsionada pela ansiedade, aproximou os rostos. Narizes se roçaram, olhos se encontraram, um sorriso surgiu em cada uma das bocas, enquanto elas se conheciam pela primeira vez.

Eles eram tímidos: mesmo visivelmente excitados, não sabiam como agir. E o rosto avermelhado pelo o que viam, tanto o seu quanto o do outro, confirmava a insegurança e a dúvida de como prosseguir. Ele, meio desajeitado, mas disposto a saciar a curiosidade, colocou as duas mãos nos cabelos dele e se aproximou: quando os membros se tocaram os olhos estalaram e a respiração parou por breves segundos. Então ele começou a passear com as mãos no corpo dele: ele fechou os olhos e elas, como se tivessem vida própria, se guiaram. Conheceram os ombros fortes, a pele lisa, brincaram com os mamilos eriçados (e um sorriso de canto de boca surgiu), se surpreenderam com o abdômen definido. Sorrateiramente, e agora com trocas de olhares que duravam segundos, uma das mãos continuou descendo, enquanto outra subiu até a nuca. Ao mesmo tempo que a mão embaixo alcançava algo que pulsava e que a deixou cheia, a mão que estava na nuca aproximou os rostos, e então os lábios se tocaram pela primeira vez.

8 de setembro de 2012

Roche

Roche by Sébastien Tellier on Grooveshark

Sentamos.
Em breve silêncio.
Os olhos castanhos se encaravam.
A sobrancelha direita se erguia.
Os lábios abriam-se lentamente, num sorriso provocador.
Tanto os de cima quanto os debaixo.
As pernas estavam cruzadas. 
Aquele belos e únicos exemplares devastadores de coxa a mostra.
O pé direito balançava no ar, ansioso: questionador.
Perguntava-me: não fará nada?

O silêncio se rompeu.
Rompeu-se com o som da cadeira em que sentava caindo.
Ela caia pelo pulo brusco que dei.
Rompeu-se com o som dos botões que caiam.
Que caiam da blusa que ela usava ao ser rasgada fortemente.
Rompeu-se com o som das costas batendo na parede.
Por causa das pernas que trançavam minha cintura,
das unhas que cravavam minha nuca.
Rompeu-se com a respiração acelerada.
Do fôlego que quase não aguenta,
do pulmão em busca de ar.

E os seios que pularam
do soutien que voava
tinham a textura do divino:
macios e suaves,
com a mistura perfeita de cheiro e paladar,
como a língua podia comprovar
ao dançar com passos rápidos
em torno dos mamilos
duríssimos.

E as coxas que a cintura
envolviam,
eram a prova que algo perfeito existia:
definidas e milimetricamente calculadas
para serem simplesmente belas
e irresistíveis.
Fortes e com atitudes, elas ajudavam
o movimento.

E o movimento que fazíamos
tinha um ritmo próprio,
não era guiado por nós.
O meu vai, o dela vem, sincronia perfeita.
O encaixe dos quadris,
os lábios que se beijavam,
os lábios que me beijavam, calorosos.

Entre movimentos frenéticos,
gemidos ruidosos,
e o bater de corpos apaixonados
(pelo desejo, pelo prazer),
fez-se a enchente,
e os mais longos suspiros
encheram a casa e os corpos.

Como vento

Reinvento
como vento
levo e trago,
leve estrago
passageiro.

Reivento
como vento
viajo e vejo
ajo, cortejo
breve arquejo.

Reinvento
como vento,
posso ser sutil
passo ser hostil:
arrebanho o caos.

Reinvento
como vento,
sem motivos
num vai e vem
vendado, vendaval.

17 de agosto de 2012

A beleza de tudo, é a certeza de nada

obrigado Zeca Baleiro e Lobão pelo  título

a chuva está caindo suavemente, e lentamente meus cabelos começam a ficar úmidos. as gotas então começam a escorrer pelo meu rosto, traçando pequenos rios com uma correnteza contínua: há uma certa beleza nisso que me comove: é como se cada uma destas pequenas gotas estivessem buscando uma liberdade, e a conseguissem, ao perambular livremente pelo meu rosto. elas riscam seu próprio caminho.
sou grato por esta repentina chuva. minhas lágrimas aproveitam o traçado das gotas, que mantém sua correnteza pelo meu rosto, e se misturam a elas. se escondem assim, uma pretensão de não serem nada além de mais gotas pelo meu rosto. mas elas não me enganam, não mais. sei que elas caem de outro céu, do firmamento dos meus olhos, esses dois labirintos castanhos confusos e curiosos. ela diria que meus olhos são arqueólogos, pois estão sempre procurando algo, tentando ver através da superfície dos outros, tentando descobrir as relíquias escondidas de cada um. mas nem sempre acham o que procuram. e é quando a frustração se abate sobre eles: ao perceberem que não são todos que possuem relíquias escondidas, e que nem todas são verdadeiras.
é uma tarde de primavera, com toda a leveza que a estação proporciona: os sorrisos são gratuitos, as pessoas estão doces e o tratar com o próximo se torna menos complicado. nós pensamos duas vezes na primavera: há uma harmonia nesta estação que nem o mais mau humorado de nós se arrisca em quebrar. a primavera é uma orquestra e nós somos os músicos que a tocam, mantendo o ritmo e a afinação. até esta chuva não tira o bom humor das pessoas, que sorriem e andam em passos apressados para se proteger, ou do casal de namorados escondidos em baixo do guarda-chuva abraçados como se fossem um, ou da criança que pisa na poça d’água e ganha um olhar de reprovação seguido de uma cara desanuviada acompanhada por um sorriso belo e tenro da mãe.
não havia reparado o quão belo é a essência da chuva: o ato de lavar tudo o que toca. percebi, então, o porquê das minhas lágrimas. não era só meu rosto e corpo que era lavado.
chovia dentro de mim, e ali, ali dentro, minha alma era completamente lavada. e as lágrimas eram suas dores indo embora.

11 de agosto de 2012

Mantra

Pare com tuas reclamações,
tuas lamúrias.
Suma com tuas contradições,
tua fúria.

O mundo é um problema,
não faça da insatisfação
o teu lema.

Todos passam por contratempos,
seja senhor do teu próprio tempo,
procure, busque, queira, deseje.

Decida tua vida,
siga teu caminho, faça tuas escolhas,
plante, cuide, e então colha:
a vida já é doída,
não precisa do teu dito sofrimento.

Dê a cara a tapa,
só ganha quem arrisca.
A vida são etapas:
irá sorrir, irá se decepcionar.
A beleza está no reerguer-se,
e as lágrimas irão passar.

Seja gentil, seja corajoso,
seja forte, seja audacioso.
Seja leve:
o mundo já é pesado o suficiente,
não precisa da tua negatividade.

Seja consciente.
A tua raiva e o teu pessimismo,
tiram o sorriso e criam um abismo.
É tão difícil ter quem nos ame
e aceite,
para que afastar as poucas que temos?

Seja homem, seja mulher.
Cada queda é um degrau:
é tua escolha crescer
ou descer.

7 de agosto de 2012

Lisa

Desliza, morna
e lisa, o teu
corpo que orna
bem no meu.

Diz, Lisa:
condiz a brisa
que alisa
como meretriz
tuas chamas cheias
de ardis?

Para Lisa:
lance teus violentos quadris,
dance meus movimentos febris.
Paralisa, poetisa.

Meu verso imerso no 
seu universo.

26 de julho de 2012

Bebê

Bebê,
por que vai embora?
Bem agora
que a cama implora
por teu cheiro,
teu rosto
no travesseiro.

Bebê, 
o mundo não é 
só dinheiro,
vamos viver de poesia
e prosa, 
minha caligrafia
na tua curva
sinuosa.

Bebê,
vem ser feliz
sem lógica,
sei que sou mero
aprendiz,
mas tudo que faço
é com muito esmero.

Bebê,
olha em volta
e veja bem:
solta a mala,
me abrace
  e diga "amém".

16 de julho de 2012

Destino é o que decidimos

quem se importa
se deus escreve certo
por linhas tortas

não é o que busco
quero: o repentino
o movimento brusco

o toque nada sutil
o olhar confesso
de quero sexo
é o meu reflexo

o chão como cama
a roupa como lençol
quero ouvir que me ama
e sentir as consequências
do fogo espanhol

Tradução

traduz-se na cama
o que o desejo chama
a razão programa
o vinho trama
e o coração ama.

12 de julho de 2012

Alice

Leminskiando

Alice me disse
"bobeira", e ali se
tocou: precisava mudar
a vida inteira.
Ali cê veria, o que Alice sentiu:
disse Alice que se cê visse
e sentisse o que ali se via,
diria: "Alice, que idiotice!".
E não deu outra.

5 de julho de 2012

X (ou Samurai)

o corte é preciso
a armadura desaba
sobra nem o sorriso

O corte (nunca é) superficial

toma teu prumo,
segue sem rumo,
teu caminho, tua sina,
teu destino, bailarina
rodopie sem cair,
hei de admitir
se assim conseguir.

cate tuas pedras,
tuas lascas,
parta tua casca,
se mostre, se revele,
torne-se, se rebele,
seja o que é, borboleta,
gire a roleta,
tenha coragem, coração:
o mundo é pura ação,
e a poesia é aberração.
pare e respire
com outros olhos conspire
o mundo é bem maior
do que vemos, menor
deveria ser o ego
que nos torna cegos,
faça do teu guia o caos:
a palavra não falha
e corta pior que a navalha.

2 de julho de 2012

Trilhas, lembranças e vestígios

há uns meses
poesia era um relapso
agora às vezes
puro colapso

  meu mundo em 
  falência
    decreto estado de 
  emergência:
este coração sofre tua
   ausência.     

estilhaços
pavimentam o caminho que
traço.

este poema
pode parecer desconexo
mas em anexo
está impresso
todo o excesso
de sentimento
    de todo um momento.

19 de junho de 2012

Seja assim e me terá até o fim

Venha e me faça mal
nada pensado, apenas o essencial
de ti me basta o carnal
sem máscaras, só o natural
te quero imoral
louca e irracional
jogada na cama, nua e letal
um sexo nada convencional
me bata e seja desleal
quero algo criminal
um sexo inconstitucional
longe do casual

afinal o igual
está distante do ideal
e o melhor sempre fica pro final.

6 de junho de 2012

Ar IX

Eu tenho a sorte
de beijos roubados
duma noite improvável
dum corpo louvável.

Eu tenho a sorte
de sonhos realizados
duma risada gravada
duma nova morada.

Eu tenho a sorte
de olhos belos
do sorriso delicado
dum objetivo alcançado.

Eu tenho a sorte
de olhares singelos
do sempre imprevisível
do amor incompreensível.



4 de junho de 2012

Corpo fechado (ou ciclo)

Corpo fechado, copos na mesa,
carteira vazia, moral em baixa.
Mente aberta, copos vazios,
carteira na mesa, corpo em baixa.
Razão nula, corpos na mesa,
copos vazios, carteira aberta.

Nossa vida, nossa sina,
a verdade que trespassa a retina:
esta nossa doutrina será nossa ruína.

Dançamos e rodamos e
giramos e rodopiamos e caímos,
reerguemo-nos e assim continuamos
pois esta nossa vida é este
eterno levantar e cair, 
levantar e cair
levantar e
c
a
i
 r.

Mas o que fica é:
o quão disposta esta você a 
levantar e cair?
Mas a questão é:
acharemos o nosso
equilíbrio?

31 de maio de 2012

Reinventar-se

E vem você
suave decidida
vem vestida de pena
acabar com a cantilena
sem futuro

E vem você
despida de dor
sem ódio ou amor
absolvida terminar
a quase ilusão

E vem você
aceitando o não
mostrando vida
passagem sem volta 
apenas ida

28 de maio de 2012

Quando você voltar...

... por favor, tranque o portão, não bata a porta. A pequena demorou pra dormir, disse que sentia tua falta e queria ouvir tua voz e só dormiu depois de um bom tempo chorando. O café está passado, lembre-se de desligar a cafeteira. Fiz aquele bolo que você gosta e tem suco de uva na geladeira. Pois é, sei que é um dos teus favoritos. Não faça cena e, por favor, não grite. Ela tá dormindo, lembra?
Fique no sofá da sala, tenha certeza que ouvirei você chegando e irei te ajudar: sei que não estará bem. Não dificulte: não tente me bater, não me ofenda ou fale tuas verdades. Não as ouvirei. Não agora, pelo menos. Não vou discutir, ou retribuir tuas agressões, irá falar sozinha. Por isso, não se dê ao trabalho. E lembre-se: eu te amo.

18 de maio de 2012

Detalhes

Você reparou? Viu aquela folha caindo, flutuando lentamente num movimento de vai e vem, nesta doce brisa de outono, com este sol escondido por trás das nuvens, com um olhar tímido nos brindando um delicado e modesto sorriso? Você reparou?
Percebeu como ela sorri quando mordiscamos o lóbulo da orelha dela, e quando os olhos nos encaram inquisidores como que perguntassem "o que estão fazendo?", e a resposta que os nossos dariam seria "seja o que for, você está gostando". Você reparou?
Reparou como o tempo está fechando e estamos sem guarda-chuva? Despreparados como sempre, assustados e com questionamentos sinceros sobre se devemos nos proteger ou simplesmente correr pelos pingos enormes que despencam das nuvens zangadas no céu escuro. Você reparou como nós nos demos a mão, apertando com força, em como nossos olhos se encontraram e como crianças sorrimos mordendo os lábios e através de gargalhadas corremos pela chuva que caia? Você reparou?
Reparou como os pelos dela ouriçam quando nossos lábios roçam e brincam suavemente pelo corpo dela? Aquele corpo despido de roupas e vergonhas que diverte-se ao se debater na nossa cama e chutar as cobertas para os lados, em falsas tentativas de se desviar de nossas mãos ágeis. Você reparou?
Reparou como lá fora está um belo sol, um dia inesperadamente claro e revigorador? Você reparou em como quando já não há muitas certezas é que as coisas se confirmam, é quando abrimos a cortina e o sol ofusca nossos olhos, mas em poucos segundos o sorriso brota em nossos rostos pois o céu azul que vemos alegra qualquer dia? Reparou?
Você reparou em como é perfeito o contraste entre o teu branco e o moreno dela?
Pois deveria.

24 de abril de 2012

6 de abril de 2012

Passos

Vem dançante, toda sensual, nem repara
que antes dela pensar, meu bote já se armara.
Sem hesitar, cheia de si, ela vem e não para:
olhar marcante, um que de mortal, encara:
avança e a derrubo com um tapa na cara.
Com ela no chão, minha vez: meu corpo dispara.
Nada relutante, instinto animal (ela é rara),
ela permite que eu satisfaça a minha tara.

28 de março de 2012

Ar X

arrisquei
             e
rabisquei
    bre
          ves
          versos
       doces
       inversos
                      do que eu
     ansiava
procurar.

faltou
           ar
risquei
       verbos
    diversos
     que não
             cabiam
             nem
      satisfaziam
             o
universo
      da nova
                     poesia
          que escrevia.

[o que]
       perma
                   nece [é]
 o doce
 sabor nos lábios
           e o
  odor suave do
             novo perfume:
                     acostume-
                                   se,
 amor.

18 de março de 2012

Sonho

Livro aberto, por completo exposto, e nada de você. Tua cama aconchegando, fiz dela ninho, meu corpo reagindo às cenas que visualizo em minha cabeça, o que farei com você quando chegar e me ver desse jeito na tua cama. Há uma nada sutil elevação no cobertor que vai até minha cintura e essa espera que perdura apenas descontrola o que nunca teve muito controle tratando-se de você. E meu corpo nu que arrepia com o vento delicado que atravessa as cortinas que criam uma envolvente atmosfera nesse teu quarto: esta penumbra onde as sombras do Desejo e do Sexo dançam em conjunto, tomando formas tentadoras e sedutoras.  Ligeiramente descabelado, me bato e me jogo e me viro na tua nossa cama: seduzido pelo Desejo, o fôlego começa a faltar e o descontrole a reinar: esta espera está matando aos poucos: a elevação lateja, pulsa incontrolável: a alma faz malabarismo e acrobacias, enlouquecida pelo gosto suave do vinho do Desejo e meu corpo é o salão – em cada parte dele reverbera uma memória tua – em que ela pula e dança e gesticula e não cansa.

E neste embate em que o Desejo está vencendo com considerável vantagem, ouço um som mágico que vira o jogo: o estalo da fechadura e a porta rangendo ao se abrir. O sorriso mais libertino brota em meu rosto quando ouço teus passos, cada vez mais altos conforme se aproxima da porta. Lanço o olhar mais descarado que possuo, com um leve arquear da sobrancelha, e o sorriso libertino se expande ainda mais quando a porta se abre e a coberta voa para o chão e eu te digo o mais cínico “olá”.

9 de março de 2012

Viver

Tentei parar com a poesia:
não me dá o pão de cada dia
e com ela o dinheiro não se cria.

Me prostitui: fui me ter com a prosa.
Caí na vida: coloquei um vestido de chita rosa
e me fodi duma maneira vergonhosa.

Me encantei com a crônica:
tentei uma verve meio camaleônica.
Não deu: me acabei no gim-tônica.

Me recomendaram jornalismo:
escrevi sobre o islamismo
e me apedrejaram pelo meu artificialismo.

Apelei pro texto infantil:
veio me encher o saco um tio
e mandei tudo pra puta que pariu.

Resolvi seguir minha sina:
voltei pra poesia!
Vou viver de faxina,
mas é o que me dá alegria.

8 de fevereiro de 2012

Ar VIII

o quão errado é ter esperança
sem mais cobrança: quem corre 
sempre alcança? sempre haverá 
a lembrança que você deixou 
como herança, e a segurança
que tinha até quando a perna trança;
houve mudança e há entre nós uma certa
semelhança, ela contrabalança com
nossa teimosia que gera uma certa
desconfiança. percebe que não há
desesperança quando o que
está na liderança é a tua lembrança?!
E ela não
descansa.

29 de janeiro de 2012

Eu blefe,

Eu blefe,
você poker.
Eu espantalho,
você assusta.
Eu ferro,
você passa.
Eu falto,
você completa.
Eu indo e
você vindo.

23 de janeiro de 2012

Eu sou

O rei da disparidade,
o palhaço da liberdade!
Aquele que tem alguém,
mas, ao mesmo tempo, ninguém!

O que dança conforme a canção,
o que lança formas em vão!
Aquele que já chorou de alegria e
na tristeza faz poesia.

O poeta de quatro meses
e que ainda, às vezes,
se pergunta e questiona
os sentimentos que traz a tona.

22 de janeiro de 2012

19 de janeiro de 2012

Escuridão radiante

There's a radiant darkness upon us
- The National

Há uma escuridão radiante sobre nós,
há um sol escurecido sob nós:
nos eleva para transcendermos
o chão no qual nossos pés não se
sustentam.

Há uma escuridão radiante sobre nós,
há um mar infinito em nossas mãos:
navegamos no encouraçado de papel
para voarmos como folhas e chegar onde
não sabemos.

Há uma escuridão radiante sobre nós,
há um desejo iluminado em nós:
ele é nosso guia, nosso totem, aquilo
que nos mantém em pé sem termos
chão.

18 de janeiro de 2012

V

Partiu você:
que o raio
a parta.

Egocentrismo

O

                                        
seu                                                Mundo

                                                         
                                                              

   do                       Umbigo                          não 


                                         
   
torno                                              gira


em

16 de janeiro de 2012

Como Curitiba

Posso ser as quatro estações:
imediato, como o verão;
pacífico, como a primavera;
introspectivo, como o outono;
recluso, como o inverno.

Mas sou como Curitiba:
todo o tempo ao mesmo tempo.

14 de janeiro de 2012

A dança

Chega assim,
vem pra mim:
nua lua na rua.

Chega assim,
vem pra mim:
vossos seios sóis.

Chega assim,
vem pra mim:
arredia dia irradia.

Chega assim,
vem pra mim:
no escuro escondida.

Chega assim,
vem pra mim:
goza gozo sem fim.

13 de janeiro de 2012

Esse sentimento bizarro chamado amor

Amor suspense
parece que não me pertence
Amor nonsense
acho que hoje ele não vence

Amor idealizado
vida sacaneia e manda o errado
Amor verbalizado
tudo que diz não é falado

Amor vencido
Às vezes ama, às vezes suicido.

9 de janeiro de 2012

Mente, mente

Começamos
lentamente
 a dançar
delicadamente
na cama que rangia
ruidosamente
tem música tocando
suavemente
mas quando a roupa cai
vagarosamente
acordo
rapidamente
sonho
continuamente
e preciso de você
imediatamente

7 de janeiro de 2012

Até logo

Não quero que você pense,
que sou desses que usa abusa e joga fora,
quero apenas que entenda e descanse:
entenda que tenho que ir, já deu minha hora.

E isso não quer dizer que não curti, não seja neurótica.
Para, não grita, e solte esse abajur!
Mulher, não me bata e solta essa faca, não seja gótica.
E chega de latir, Arthur!

Isso, te acalma. Vê agora que não dá pra continuar assim?
Te agradeço por tudo, foi especial o que tivemos.
Não te esquecerei: pensarei em você, espero que pense em mim.

Este é o último beijo: agora, nada mais temos.
Amanhã pego minhas coisas: ponto final, fim.
Vivi feliz, mas quero calma: sem mais extremos.

Pertencer

Fecho minhas portas pra você,
que não entende minhas linhas tortas, nem faz
questão.

Fecho minhas cortinas pra você,
não terá, assim,  minha luz pra te
guiar.

Fecho minhas janelas pra você,
não merece o sussurro dos meus
lábios.

Derrubo minhas paredes,
não quero que pense que algum dia teve aqui um
lar.

Derrubo minhas colunas,
não quero que pense que algum dia algo aqui te
susteve.

Derrubo minha casa,
não quero que lembre que neste local houve algo entre
nós.

Queimo minhas mobílias, fotos, roupas e lembranças.

Você eu apago.

4 de janeiro de 2012

Meu amor,

Meu amor,
não me responsabilizo:
te vejo assim outra vez,
perco o juízo!

Minha poesia

Minha poesia
não é autobiografia
nem bijuteria.

Minha poesia
é arredia
e não se cria.

Minha poesia
vive em desarmonia
e se sente vazia.

Minha poesia
que já foi esguia
foi parar na delegacia.

3 de janeiro de 2012

Aconteceu

Estranhas memórias
de coisas que não fiz,
com pessoas que não conheço
em lugares que nunca fui:
e agora, que faço, enlouqueço?

Lembranças de você comigo há anos,
mas, pensando bem, te confesso:
não sei quem é. E agora, que faço, padeço?

Desviou o muro, derrubou a rota,
partiu a porta, arrombou o espelho
e partiu. Passa tempo, na passarela
da saudades, não sei bem de quem,
passeio e estremeço.

Paro e te vejo,
bate desejo, mas
não sei de quem:
emudeço.