9 de janeiro de 2013

Negócios

posso viver de poesia?
pagar meu aluguel com versos,
pedir meia dúzia de pães na padaria
e pagá-los com repetições?

comprar roupa e parcelá-la
em três estrofes curtas;
colocar um ou dois sofás na sala,
acertar com um soneto para daqui um mês?

fazer caridade com versos ingênuos,
um poema inteiro dedicado à instituições.
e que isso fosse suficiente para, talvez,
alimentar alguns corações.

imagine quão belo seria,
o telemarketing ofertar
um combo internet, telefone e tevê,
e apenas quatro versos lhe cobrar?

pode parecer nada importante,
mas eu sonho com esse dia
simples e um tanto distante,
que eu possa viver de poesia.

Área de trabalho

minha área de trabalho está uma bagunça. há algo errado.
os ícones estão sobrepostos, há pastas com nomes estranhos e sem sentido, números misturados com letras, formando supostos nomes desconexos. estou confuso. umas músicas jogadas, que não sei se as ouvi ou se apenas estão ali perdidas, pedindo alguns minutos de minha atenção: como tantas coisas na minha vida.
há, também, umas três pastas de fotos, antigas, que não deveriam estar na área de trabalho, pois como tudo, teoricamente, neste computador, elas têm seu lugar específico. mas tenho uma certa relutância em arquivá-las como deveria: estas pastas são de fotos nossas: duma festa que fizemos, dum café que tivemos, dum porre que tomou. acho que é algo meio inconsciente deixá-las ali, na área de trabalho: são lembranças queridas que sempre rodeiam o pensamento, bastando ler o nome das pastas para que isso aconteça. enquanto eu poderia arquivá-las, e assim tê-las ao alcance junto com várias outras pastas de lembranças, estas ficam ali, à vista. não sei bem qual o motivo destas pastas, especificamente, estarem onde estão, mas o carinho ao vê-las é imediato. 
acho que é isto: saudades tua.
toda esta bagunça me contradiz, não é da forma como sempre fiz. acho que ando meio desatento, olho pra este texto e reparo em algo que aconteceu: a caixa alta nem apareceu.
Acho que é isto: saudades tua.

6 de janeiro de 2013

Ar X

Ela me pediu um poema.
Resmungou que há tempos
não escrevia algo pra ela.
E quem resiste a cara do amor?

Pensei então que poderia 
descrever, minuciosamente,
uma paisagem familiar pra mim:
as estradas de curvas fechadas
que passeiam até belas montanhas,
desembocando em um vale
que só pode ter sido desenhado à mão,
tamanha perfeição.

Mas não. É clichê demais.
Pensei em cruzar comparações,
como a sensualidade do tango
casa com a latinidade
tão presente naqueles quadris
que com movimentos sutis,
e outros nem tanto,
me hipnotizam:
alguns desejos nada santos.

Ou ainda,
resgatar poetas e compositores,
quem sabe um ou dois pintores,
e fazer um poema
que fosse só dela.
Talvez com um pequena introdução,
para deixar clara a intenção:
ceci n'est pas un poème.

Entre tantas ideias,
acabou que nenhuma escolhi.
Cheio de dúvidas,
simplesmente desisti
e nada escrevi.

3 de janeiro de 2013